Resenha: A partitura de Clara - Silvia Gerschman

 

Sinopse: A partitura de Clara pode ser visto como um romance histórico de formação, ou seja, trata-se de uma narrativa que se passa numa época histórica muito rica em transformações estéticas e políticas, tendo como pano de fundo a música, e, além disto, acompanha de perto a formação artística e a trajetória pessoal da sua protagonista.  O desenrolar da obra se dá em dois planos: no primeiro, dois pesquisadores de historia contemporâneos, o francês Patrick e a brasileira Anna, dedicam-se a procurar a partitura perdida de uma obra de Clara Schumann e, em segundo plano, narra-se a trajetória da pianista e compositora. [...] Ao longo de toda a narrativa, a autora consegue um bom equilíbrio entre a pesquisa histórica aprofundada que realizou sobre a época e os protagonistas que escolheu desenvolver e a construção de uma linguagem sensível, destinada a interessar e seduzir o leitor. [Por Elias Fajardo]  

Clara Schumann foi uma pianista e compositora alemã. Era casada com Robert Schumann, também compositor. No século XIX, teve uma carreira muito bem sucedida, apresentando-se em diversos países da Europa.

É a partir da história verídica da pianista que Silva constrói seu romance histórico. Nele, Ana e Patrick, dois pesquisadores, resolvem iniciar uma busca por uma partitura inédita de Clara, desaparecida há muitos anos. O livro intercala capítulos que narram a busca de Ana e Patrick com outros que mostram a vida de Clara desde a sua infância.

Nos capítulos dedicados à busca pela partitura, viajamos com os personagens para a Alemanha, onde visitam lugares estratégicos e entrevistam descendentes da pianista. Conforme as pesquisas avançam, conhecemos não só a cidade onde se instalam ou as informações que recebem, mas também a forma alemã de lidar com a cultura. A autora tem um jeito didático de escrever, e aqui e ali insere explicações e reflexões sobre termos e momentos históricos.

Já os capítulos que narram a vida de Clara dão-nos a oportunidade de saber mais - ou de ler pela primeira vez - sobre a vida de uma mulher talentosíssima e bem à frente de seu tempo, como a autora faz questão de sinalizar. Para mim, mergulhar em sua história foi uma experiência bem mais interessante que acompanhar a procura por sua partitura perdida.

Passeamos por diferentes épocas e aspectos de sua vida: as aulas de piano da infância, a história de amor com Robert, a amizade com Brahms, a inimizade com Wagner e a criação dos números filhos. Algumas informações, porém, são repetidas em diferentes capítulos e os fatos avançam e retrocedem no tempo diversas vezes, gerando uma quebra na narrativa.

Ressalvas feitas, é preciso destacar a pesquisa feita pela autora, que fica clara pela quantidade de informações contidas nas páginas, bem como a contextualização histórica muito bem feita. Prato cheio para os amantes de música clássica e de romances históricos.



*Exemplar cedido pelo Álbum de Memórias

Resenha: Minha Sombria Vanessa - Kate Elizabeth Russell

Sinopse: Em 2000, Vanessa Wye é uma estudante solitária de ensino médio. Talentosa e com o sonho de ser escritora, Vanessa diz não se importar de ficar sozinha, principalmente quando seu professor de inglês, Jacob Strane, um homem de 42 anos, começa a prestar atenção nela, elogiando seu cabelo, suas roupas e lhe emprestando alguns de seus livros favoritos ― como Lolita, de Nabokov. Antes que Vanessa perceba, os dois embarcam em uma relação e a jovem acredita que o professor a ama e a considera especial. Mais de uma década depois, uma ex-aluna acusa Strane de abuso sexual, e Vanessa começa a questionar se o que viveu foi realmente uma história de amor ou se não teria sido ela também uma vítima de estupro. Mesmo depois de tantos anos, Strane ainda é uma presença constante em sua vida. Como ela seria capaz de rejeitar o que considera seu primeiro amor?

Aos 15 anos, Vanessa Wye era apenas mais uma das alunas de um renomado colégio interno do Maine. Após um desentendimento com a única amiga que havia feito no ano anterior, vê-se sozinha e isolada dos demais. Estava longe de ser uma estudante exemplar, mas era sensível e gostava de escrever.

Não demorou muito para que a menina ruiva e solitária chamasse a atenção de Jacob Strane, seu professor de literatura, que logo iniciou uma aproximação. A princípio, as atitudes do homem de 42 anos foram sentidas como inadequadas por Vanessa. Pouco a pouco, porém, ela foi completamente envolvida por um discurso que romantizava e suavizava o que aquilo tudo significava de verdade. Em um ambiente que deveria oferecer educação e proteção, teve início um longo período de abuso sexual e manipulação.

Com capítulos que alternam passado e presente, o livro nos mostra também uma Vanessa de 32 anos, acomodada em um emprego aquém de suas qualificações, fazendo uso abusivo de álcool e outras drogas - lícitas e ilícitas-, mantendo relações vazias e se colocando constantemente em situações de risco.

Ao mostrar aspectos da vida adulta da personagem, a autora traz à tona comportamentos que podem ser observados fora das páginas dos livros, na vida de mulheres que também sofreram abuso sexual. É dilacerador constatar todos os danos causados.

Narrada em primeira pessoa, a trama provoca desconforto o tempo inteiro, tanto pelas descrições sem rodeios dos abusos vivenciados pela personagem como por sua dificuldade em enxerga-los como tais. Ao permitir que os leitores mergulhem tão profundamente nos pensamentos e sentimentos de Vanessa, a autora coloca-nos em contato com toda a angústia sentida por ela e com a ambivalência em relação a tudo o que viveu.

Em alguns poucos momentos, ela consegue nomear corretamente as coisas: abuso; abusador. Porque foi isso que aconteceu. Porque é isso que Strane é. Na maior parte do tempo, porém, ela define sua experiência como uma história de amor e fala de Strane com carinho. Colocar-se no lugar de vítima é algo não aceito por ela, que, ao contrário, muitas vezes se culpa. É preciso ter empatia e abrir mão dos julgamentos para entender todas as nuances e a complexidade psicóloga da protagonista criada por Kate.

Apesar do clima pesado, a escrita é fluida e a leitura evolui bem. Vi-me virando as páginas sem parar, não por se tratar de uma leitura prazeirosa (como seria?), mas pela vontade de chegar ao fim daquilo tudo, de descobrir se as coisas terminariam bem para Vanessa.

Pesada. Angustiante. Repugnante em muitos momentos. Recomendo a leitura para quem se sente preparado para ela.



Carla

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CARLA. CARIOCA, CAPRICORNIANA E PSICÓLOGA. APAIXONADA, POR LIVROS, BRIGADEIRO DE PANELA E FILMES ANTIGOS.

Nathalia

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NATHALIA. CARIOCA DA GEMA, GEMINIANA, PEDAGOGA E JORNALISTA. VICIADA EM SÉRIES E LIVROS SOBRE CRIMES.

Renata

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RENATA. MINEIRA, TAURINA E ROMÂNTICA. LOUCA POR VINHO E TATTOOS.