Diz que é de amor, e de amor nosso, e de amor incurável; de amor, de amor nosso, e de amor incurável, e sem remédio. Tudo conquista o amor, quando conquista uma alma; porém, o primeiro rendido é o entendimento. Usar de razão, e amar, são duas coisas que não se ajuntam.

Diz que é de amor, e de amor nosso, e de amor incurável; de amor, de amor nosso, e de amor incurável, e sem remédio. O amor deixará de variar, se for firme, mas não deixará de tresvariar, se for amor. São afeições como as vidas, que não há mais certo sinal de haverem de durar pouco, que terem durado muito. São como as linhas, que partem do centro para a circunferência, que quanto mais continuadas, tanto menos unidas.

De todos os instrumentos com que o armou a natureza, o desarma o tempo. Afrouxa-lhe o arco, com que já não tira; embota-lhe as setas, com que já não fere; abre-lhe os olhos, com que vê o que não via; e faz-lhe crescer as asas, com que voa e foge. Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba. Atreve-se o tempo a colunas de mármore, quanto mais a corações de cera? Por isso os Antigos sabiamente pintaram o amor menino: porque não há amor tão robusto que chegue a ser velho.

O segundo remédio do amor é a ausência. Muitas enfermidades se curam só com a mudança do ar. O amor, com a da terra. É o amor como a Lua, que em havendo Terra em meio, dai-o por eclipsado. E que terra há que não seja a terra do esquecimento, se vos passastes a outra terra? Se os mortos são tão esquecidos, havendo tão pouca terra entre eles e os vivos, que podem esperar e que se pode esperar dos ausentes? Se quatro palmos de terra causam tais efeitos, tantas léguas que farão? Em os longes passando de tiro de seta, não chegam lá as forças do amor.

Os olhos são as frestas do coração, por onde respira; e daqui vem, que o coração, na presença, em que tem abertos os olhos, por eles evapora e exala os afetos; porém, na ausência, em que os tem tapados pela distância, que lhe sucede Assim como o vaso sobre o fogo, que tapado e não tendo por onde respirar, concebe maior calor, e o reconcentra todo em si e talvez rebenta, assim o coração ausente, faltando-lhe a respiração da vista, e não tendo por onde dar saída ao incêndio, recolhe dentro em si toda a força e ímpeto do amor, o qual cresce naturalmente, e se acende e adelgaça, de sorte que, não cabendo no mesmo coração, rebenta em maiores e mais extraordinários efeitos.

A natureza e a arte curam contrários com contrários. Sendo pois a ingratidão o maior contrário do amor, quem duvida que este terceiro remédio seria também o último e o mais presente e eficaz? A virtude que lhe dá tamanha eficácia, se eu bem o considero, é ter este remédio da sua parte a razão. Diminuir o amor - o tempo, esfriar o amor – a ausência, é sem-razão de que todos se queixam. Mas que a ingratidão mude o amor e o converta em aborrecimento, a mesma razão o aprova, o persuade, e parece que o manda. Que sentença mais justa, que privar do amor a um ingrato?

O tempo é natureza, a ausência pode ser força, a ingratidão sempre é delito. O tempo tira ao amor a novidade, a ausência tira-lhe a comunicação, a ingratidão tira-lhe o motivo. E ferido o amor no cérebro, e ferido no coração, como pode viver?


É, pois, o quarto e último remédio do amor, e com o qual ninguém deixou de sarar, o melhorar do objeto. Dizem que um amor com outro se paga, e mais certo é que um amor com outro se apaga. Assim como dois contrários em grau intenso não podem estar juntos em um sujeito, assim, no mesmo coração, não podem caber dois amores. Porque o amor que não é intenso, não é amor. Daqui vem que, se acaso se encontram e pleiteiam sobre o lugar, sempre fica a vitória pelo melhor objeto.


É o amor entre os afetos, como a luz entre as qualidades.


Diz que é de amor, e de amor nosso, e de amor incurável; de amor, de amor nosso, e de amor incurável, e sem remédio. Comumente, se diz que o maior contrário da luz são as trevas, e não é assim. O maior contrário de uma luz, é outra luz maior. As estrelas no meio das trevas luzem, e resplandecem mais. Mas, em aparecendo o Sol, que é luz maior, desaparecem as estrelas.



Pe. Antônio Vieira

Tive contato com esse texto pela primeira vez há uns 8 anos, assistindo a um curta no Canal Brasil. Adorei! E, para a minha felicidade, encontrei o curta e o texto na internet há algumas semanas.


Para ver o curta: Remédios do Amor

Um comentário:

  1. Adorei a indicação! O texto é lindo e o curta me fez chorar! Bjos e boa semana

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