Resenha: A intrusa - Júlia Lopes de Almeida

Sinopse: O século XIX caminhava para o fim, o Rio de Janeiro vivia o auge da cultura cosmopolita, a Belle Époque, marcada por profundas transformações culturais que se traduziam em novos modos de pensar e de viver o cotidiano. Em meio à aristocracia carioca, um rico advogado – viúvo, mas ainda jovem e atraente – era perseguido por mães casamenteiras que desejavam ter um genro abastado e influente. Porém, ele se esquivava resoluto, pois prometera à esposa, no leito de morte, manter sua viuvez. O casamento com a filha de um barão resultou em um fruto: uma garotinha mimada e sem modos, criada pelos avós maternos, cuja avó baronesa fazia-lhe todas as vontades. Infeliz pela má educação da menina, ludibriado por um escravo que usava as suas roupas, fumava os seus charutos, bebia fartamente da adega e ainda inflacionava as contas da casa, ele decide contratar uma governanta. Atendendo ao anúncio, aparece Alice Galba, que aceita a estranha condição: que o patrão jamais a visse. Quando ele entrava pelo portão, ela se escondia. Dela ele apenas sentia o perfume e sua boa influência no lar e na educação da filha. Vez ou outra encontrava um livro aberto, esquecido sobre uma poltrona e, com o passar dos meses, passou a notar a doce presença da alma da moça pelos cômodos do casarão. Alma cujo rosto ele já ansiava ver!

No Rio de Janeiro do século XIX conhecemos Argemiro. Bem sucedido em sua carreira de advogado, ele vive só desde a morte de sua amada esposa, Maria. Do amor do casal, nasceu Maria da Glória - ou apenas Glória -, que agora está com onze anos. Desde a morte da mãe, quando ela ainda era bem pequena, a menina mora com os avós em uma chácara no subúrbio. Se sobra amor, falta firmeza para ensinarem bons modos à neta e fazerem com que estude.

A preocupação com a educação da filha, o desejo de tê-la mais vezes em sua casa e o descontentamento com a maneira como um de seus empregados lida com as finanças e cuida da casa, Argemiro toma uma decisão: precisa contratar uma governanta. O anúncio publicado no jornal faz aparecer apenas uma jovem, Alice Galba, ao contrário das muitas que ele pensou virem bater à sua porta. Ele mal vê seu rosto, mas chamam-lhe a atenção os sapatos gastos. Padre Assunção, seu amigo de infância e confessor de sua esposa, é encarregado de entrevistar melhor a moça.

Alice conquista o emprego e Argemiro tem agora uma governanta. O cargo, porém, tem uma peculiaridade: o viúvo exige que não se vejam e nem se falem. A moça não sabe, mas isso é para honrar uma promessa feita à esposa em seu leito de morte. Promessa esta que faz também com que Argemiro viva fugindo das mães ávidas por arranjar um bom casamento para suas filhas.

A notícia de que o viúvo tem em sua casa uma mulher logo se espalha. Fofocas e especulações ganham cada vez mais espaço, mas Argemiro não se incomoda. Sua casa está limpa e arrumada como há tempos não ficava, os meses findam com seu saldo positivo e Glória está cada vez mais instruída. A situação gera um ciúme doentio em sua sogra, que excessivamente apegada à memória da filha e à promessa feita, não medirá esforços para tirar da vida da neta e do genro aquela que vê como intrusa.

Narrado em terceira pessoa, o livro passeia pelas histórias de vários personagens. A única que permanece um mistério para o leitor é Alice. Argemiro diversas vezes descreve a governanta como uma "alma". Assim como para ele, para nós sua presença é materializada nas cestas de flores e frutas, nas gavetas arrumadas, num livro esquecido ou num perfume no ar.  Ela é quase invisível para o leitor também, mas não se pode dizer o mesmo de suas realizações e do que a sua presença causa. 

Fica cada vez mais claro que a governanta teve uma boa educação. Então por que se sujeitar a um emprego assim? Será que Luiza, a sogra, está certa em suspeitar de Alice? A autora só traz as respostas no final, através de um personagem que também carrega um grande segredo.

A intrusa traz em suas páginas mais do que romances e intrigas. Escrito por uma mulher numa época em que a literatura era uma atividade exclusivamente masculina, o livro toca também em questões sociais. E, apesar de ser uma obra de 1905, a leitura é fácil e fluida. A editora optou por fazer algumas alterações na linguagem visando uma leitura mais agradável e acessível. Deu certo. 

Minha única ressalva é em relação ao final. Esperamos muito tempo por respostas e, quando elas chegam, o desfecho da situação se dá de forma abrupta, sem que tenhamos a oportunidade de acompanhar seu desenvolvimento até ali.

Júlia construiu um romance através de sutilezas. Não há trocas de olhares, encontros furtivos nem mãos esbarrando sem querer. Ainda assim, o interesse surge e cresce. Silenciosamente para o viúvo, bem alto para os que o rodeiam. Se a governanta é digna de adentrar um coração fechado por tantos anos e se Argemiro se permitirá viver um novo amor, são coisas que vocês terão que ler para descobrir.

*Exemplar cedido pela editora.

20 comentários:

  1. A capa do livro é linda, amo capas assim nesse estilo e a historia tbm me cativou! Estou curiosa pela leitura
    http://b-uscandosonhos.blogspot.com.br/

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  2. Um romance de época MESMO! Gostei da premissa e fiquei muitíssimo curiosa a respeito dessa governanta. Já imaginei várias possibilidades, mas com certeza não é nenhuma delas né! Kkkk!
    Bjks

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  3. Amei a indicação! <3

    www.kailagarcia.com

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  4. Oi
    não conhecia, mas adorei a resenha e já quero ler esse livro um tipo de história que curto, legal que realmente parece ser bem delicado.

    momentocrivelli.blogspot.com

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  5. Oi Carla!

    Eu adoro um romance de época/histórico, seja escrito por autoras contemporâneas ou não, aliás, às vezes não sendo a trama é até mais densa. Vou ler esse com certeza! E adorei a resenha, bem completa!

    Bjs, Mi

    O que tem na nossa estante

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  6. Oiii! Sou louca por romances de época, e esse me encantou demais! A sua resenha é ótima, me fez querer tê-lo aqui. Como você falou, é um jeito diferente de se apaixonar! Esse ar de mistério me cativa muito, vou anotar na minha lista rsrs Adorei o blog e já estou seguindo.

    *Beijokas -Hellen Barros.

    www.apenasgiz.com.br

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  7. Oi, Carla!
    O livro não é muito o estilo que eu gosto, mas a história parece fofa e cativante. Tenho que conhecer melhor esse gênero, talvez comece por esse! Ótima resenha!
    Beijos!
    Borboletas de Papel | Fanpage

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  8. Oiie!
    Gostei da indicação, por mias que não goste muito desses estilos essa história parece ser bem legal!!
    Beijos..
    Danny Lee ♥ | Girls Sweet

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  9. Oi Carla,
    Confesso que fujo um pouco de livros em terceira pessoa. Tenho um pouco de trauma com essas narrativas, mas eu gosto muito dessa premissa.
    Não conhecia esse livro, mas pela capa não imaginaria que era um novo nacional, rs. Parecia algo mais clássico, né?
    Beijos
    estante-da-ale.blogspot.com.br

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    1. Oi, Alessandra! Não é novo, não. O livro foi escrito em 1905! Sua impressão sobre a capa estava certa! ;)

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  10. Oie! Tudo bem? Que capa estranha .-. não sei se leria ele por hora, mas parece ser interessante! kkk seguindo aqui, segue la no RT tbm :3
    E vem conhecer o projeto Poetas Urbanos no meu blog! Espero que goste!
    http://resenhasteen.blogspot.com.br/2016/08/projeto-poetas-urbanos.html

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  11. Gosto bastante do gênero e o detalhe de ter sido escrito numa época em que poucas autoras existiam torna tudo mais interessante. Fiquei curiosa pra ler!

    xx Carol
    http://caverna-literaria.blogspot.com.br/

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  12. Oi Carla!
    Não conhecia o livro, e me surpreendi quando você disse que ele foi escrito em 1905!
    Parece ser uma leitura bem interessante, ainda mais por se passar aqui no Brasil.

    Beijos,
    Sora - Meu Jardim de Livros

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  13. Não gostei muito da ideia do livro, mas depois vou pesquisar um pouco mais sobre ele. Acabei de conhecer seu blog e adorei.
    Abraços!
    http://umlivroabertoig.blogspot.com.br/

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  14. Olá, Carla.
    Não conhecia esse livro ainda, mas me interessou. Só fiquei receosa com esse final. odeio quando os autores fazem isso de apressar as coisas para terminar e fica aquela sensação de que faltou algo. E que bom que deram uma mudada para melhor compreensão.

    Blog Prefácio

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  15. Oie, tudo bom??
    Eu não conhecia o livro, mas parece ter uma trama bem interessante.
    Gostei da dica, e a resenha ficou excelente!!

    Beijos,
    Juh
    http://umminutoumlivro.blogspot.com/

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  16. A sinopse me parece familiar a Jane Eyre *-*, de Charlotte Brontë.

    ✦ ✧ http://bruna-morgan.blogspot.com ✧ ✦

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  17. Uau, que resenha linda! A premissa é completamente diferente e chama muito atenção, simplesmente amei! Eu não daria nada por esse livro, mas lendo agora do que se trata, me interessei bastante. Vou anotar depois para ler.
    Beijos!
    Leitora Encantada

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  18. Oi, Carla!
    Gente, ninguém diz que esse livro se data de 1905 oO
    Dificilmente eu me interesso por livros "antigos", mas sua resenha me convenceu a dar uma chance.
    Beijos
    Balaio de Babados

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  19. PRECISO deste livro!
    Carla, eu não gosto desses romances antigos, pois aqueles valores ultrapassados me irritam. Mas simplesmente preciso ler esse livro. Hoje. Agora. hhahhaha
    sua resenha ficou maravilhosa e essa premissa é incrível. Com certeza vou adquirir esse livro <3
    Muito obrigada!
    Beijooooos
    http://profissao-escritor.blogspot.com.br/

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